Entrevista Rui Palha

Entrevista Rui Palha

Entrevista ao Rui Palha para o Blog erickimphotography.com.

1. Rui, você tem fotografias de rua a preto e branco fenomenais. Pode-nos contar como começou a fazer fotografia de rua?

Primeiro devo “dizer” que não sou muito bom a expressar os meus sentimentos, nem pensamentos através de palavras. Prefiro fazer isso através de imagens, mas vou tentar colocar em palavras o que quer saber acerca de mim.   A fotografia é um hobby desde os 14 anos de idade.  Tinha a minha própria câmara escura, mas para ser honesto, desde miúdo só gostava era mesmo de “clicar” nas ruas. Sentia-me sempre maravilhado, hipnotizado mesmo, com o movimento das pessoas, com as suas expressões, suas reacções…
Sentia que era um desafio fantástico o registo de toda aquela animação da vida quotidiana e uma maneira de aprender sobre o ambiente que me rodeava. No meu “mundo fotográfico” todas as pessoas são únicas e a componente mais importante de minhas fotografias.  Esta frase define o meu modo de estar na fotografia e… na vida:
“A fotografia faz parte integrante do meu espaço…é descobrir, é captar, dando vazão ao que o coração sente e vê num determinado momento, é estar na rua, experimentando, conhecendo, aprendendo e, essencialmente, praticando a liberdade de ser, de estar, de viver, de pensar…” ”

2. Há quanto tempo faz fotografia de rua e quais foram os obstáculos ou dificuldades que encontrou?

Fotografo desde os 14 anos de idade (como escrevi antes), com interrupções grandes até 2001, desde então, quase todo o meu tempo é dedicado à fotografia de rua e  a projetos sociológicos de longo prazo em bairros problemáticos de Lisboa.  Aqui em Portugal ser fotógrafo de rua não é muito fácil.  Há muitos lugares “proibidos”… o metro, centros comerciais, bairros problemáticos, etc, mas provavelmente, é o perigo que de alguma forma me atrai, provoca e faz subir a adrenalina. Às vezes tenho problemas com o pessoal de segurança ou com pessoas que não querem ser fotografadas, mas tudo pode ser resolvido com frontalidade e uma conversa franca e directa. De qualquer forma devo dizer que, por vezes, tive alguns problemas com pessoas mais agressivas e que, depois de algumas palavras (às vezes uma longa conversa), quase se tornam numa espécie de amigos, e desde aquele momento, acabo por não ter qualquer problema nesse lugar específico pois sou “eleito” como um “protegido”, um cúmplice. Tenho muitas experiências memoráveis ​​e histórias durante a minha fase de fotografia de rua mas não tenho tempo nem espaço suficiente para contar isso agora. Acho ou melhor, tenho a certeza, de que a rua é uma escola, uma grande parte do meu “eu” foi construído com o que tenho aprendido nas ruas.

3. O que deseja transmitir através de sua fotografia?

Não sei, mas acho que tento ser um contador de histórias utilizando imagens, transmitindo aos outros o que “vejo” todos os dias durante as minhas caminhadas “na rua”. O meu “mundo” fotográfico é Lisboa, 90% das minhas fotos são feitas na minha própria cidade, onde as pessoas anónimas são os actores principais das minhas fotografias. Tento estabelecer uma ligação profunda  com os seus sentimentos, pensamentos, com a ajuda dos seus gestos, movimentos… Tento sempre mostrar, entre as cenas da vida real e da vida quotidiana, a beleza que existe sempre dentro das pessoas desconhecidas, dos meus modelos “de rua “, a beleza da raça humana independentemente da cor, religião e política. Como sabe eu sou um amador e eu vou ter esse status até o final da minha vida. É a única maneira de fazer o que eu quero e não o que os outros querem que eu faça. Toda a gente tem que ter (e sentir) a liberdade de criar, para conseguir reflectir o que está dentro de si.

4. Quando está fora, nas ruas a fotografar, o que o inspira a capturar uma determinada cena ou imagem?

Tantos factores… o momento em si, a magia da luz, um enquadramento que chama a minha atenção, uma cena que construí dentro da minha cabeça, o grafismo que as pessoas “desenham” enquanto se movimentam…Henri Cartier Bresson disse acerca da Fotografia “A cabeça, o “olho” e o coração devem estar no mesmo eixo”. Para mim esta frase significa, estar sempre “em cima” do momento e registar, o que foi vislumbrado à primeira vista (ou o que se conseguiu antever antes mesmo do momento acontecer, ou que nos atraiu, sem se perceber bem a razão), sempre com um sentido composicional o mais coerente possível.

Temos de ter a capacidade de antecipar, compreender, “ver”, “sentir” uma cena de rua numa fracção de segundo e devemos registar esse momento num enquadramento, se possível, perfeito. O sentido composicional é fundamental, não somente o registo do momento. Para isso dever-se-á ter a cabeça, o “olho”, o coração…e o dedo, no mesmo eixo. E eu penso que este eixo, esta característica, é indispensável para se ser um “Fotógrafo de Rua” e não, somente, um vulgar “caçador” de momentos, sem qualquer critério, “disparando” sobre tudo o que mexe.

Muitas vezes, devemos ser invisíveis, fazer parte integrante do cenário, isto permitir-nos-á uma grande proximidade a certas situações mais problemáticas. Outras vezes temos de estabelecer uma ligação muito forte com os “modelos de rua”, falando com eles, escutando-os, respeitando-os.
Temos que potenciar a nossa capacidade de “olhar” e “ver” os momentos interessantes… momentos engraçados, momentos diferentes, enquadramentos criativos… temos que entender a “iluminação” e tentar usá-la da melhor maneira possível. A fotografia de rua não é uma maneira fácil de fazer fotografia… temos que ser corajosos e astutos. E ter a capacidade de antecipar o momento antes que ele aconteça.

5. Quem são alguns fotógrafos que aprecia, e como eles têm afectado o seu trabalho?

Henri Cartier Bresson, de facto, Garry Winogrand e Elliot Erwitt, entre outros, são a minha “inspiração”. Aprendi muito observando o seu trabalho.

6. Descreva a fotografia de rua favorita que fez. Quando e onde tirou a foto, e por que é especial para si?

Para ser honesto, eu não tenho uma fotografia de rua favorita…estou sempre à procura do “TAL” momento, que sinto que nunca registei, mas que irei sempre atrás “dele”. Mas… todas as minhas fotografias de rua são importantes para mim, porque têm sempre uma história humana por trás.

7. Que tipo de câmara e lentes que para na sua fotografia de rua? Como utiliza o seu equipamento para capturar as suas surpreendentes imagens?

Eu uso vários tipos de equipamento, dependendo do que eu quero obter como resultado final e dos locais a que vou.  Levo sempre no bolso uma câmara compacta para os “lugares proibidos”, como metro, grandes centros comerciais e “lugares problemáticos “. Ultimamente estou a usar uma Leica Dlux 5 e/ou uma Fujfilm X100.  Com câmaras SLR/DSLR só uso lentes de 20mm, 35mm e 50mm. Às vezes, mas poucas vezes, com a minha Nikon D700 uso uma lente zoom Nikon 14-24 f/2.8. Concordo completamente e tento sempre seguir a citação de Robert Capa, quando fotografo: “Se as tuas fotografias não estão suficientemente boas, é porque não estás suficientemente perto”.

8. No flickr tem uma comunidade maravilhosa de outros fotógrafos que apoiam e comentam o seu trabalho. Como a construiu essa comunidade tão forte?

A internet é muito importante para mim, mas não para difundir o meu trabalho. Eu aprendo imenso vendo muitas fotografias de muitos fotógrafos de todo o mundo. É também uma maneira de ver como o mundo vai “andando”. Provavelmente essa comunidade que fala pensa da mesma forma que eu.. .não sei. Acho que deve fazer a pergunta a todos eles… eu não sei exactamente.

9. Que dicas você daria aos aspirantes a fotógrafos de rua na comunidade?

Na minha humilde opinião, eu acho que não é possível “ensinar” fotografia de rua, pelo menos para mim, como sabe (eu sempre disse isso), sou e serei um eterno aprendiz…. cada dia aprendo algo de novo na ruas, com as pessoas, com a vida. A maneira que utilizo para aprender “fotografia de rua” é a maneira que todos podem utilizar para aprender também. Algumas dicas que li algures, e com as quais concordo:

1. Aproxime-se do assunto, torne-o no objeto principal do seu enquadramento.

A fotografia de rua é toda sobre observar as pessoas, as suas acções e justaposições.  Mantenha os olhos abertos, e procure ligações interessantes. É mais provável conseguir uma fotografia interessante, quando faz parte da cena, reagindo às emoções e drama, do que estando fora dela.

2. Seja natural com a sua câmara mantendo-a afastada do seu rosto, tanto quanto possível.

Tente evitar parecer um “fotógrafo”. Como efeito colateral, tentar esconder a câmara e fotografar ás às escondidas pode torná-lo suspeito. Como disse, seja natural com a câmara.

3. Não leve consigo muito equipamento.

Vai torná-lo menos intrusivo se for capaz de se mover rapidamente. Antecipar momentos antes que eles aconteçam. Tenha sua câmara pronta para “disparar” em todos os momentos.  As situações podem mudar rapidamente na rua por isso, se não estiver preparado vai perder muitas oportunidades.

À laia de conclusão

  1. Goste das pessoas
  2. Respeite as pessoas
  3. Tenha sempre a capacidade de ouvir as pessoas, elas são verdadeiras lições de vida
  4. Tente entender as pessoas, os seus pensamentos, movimentos, sentimentos, alma
  5. Seja destemido e corajoso
  6. Tente estar o mais próximo possível das pessoas que deseja fotografar. Desta forma, vai conhecer e sentir a sua alma e vice-versa.

10. Obrigado por esta entrevista fantástica. Tem mais algumas observações finais que gostaria de falar?

Gostem do vosso trabalho de rua antes de o espalhar por toda parte. Sejam muito críticos e exigentes convosco.  Desfrutem a vida, as pessoas e a rua. Desta forma estão a desfrutar de todo o mundo, e é uma maneira de crescer sob todos os aspectos.

Ligações:

Veja mais do trabalho maravilhoso do Rui em:

http://www.ruipalha.com/
http://www.estudio14a.com/ruipalha#!__ruipalha1
http://www.flickr.com/photos/ruipalha/
http://ruipalha.portfolio.artlimited.net/
http://1x.com/artist/5005#!/artist/ruipalha/photos
http://ruipalha.fineart-portugal.com/
https://www.facebook.com/pages/Street-Photography-by-Rui-Palha/159632290717501?v=wall

Fonte: erickimphotography.com


© 2017 Fotografia de Rua | Todos os direitos reservados | Oficina dos Sites