Entrevista Rui Pires

Entrevista Rui Pires

Entrevista ao Rui Pires para o fotografiaderua.com.

1 – Quando e como foi o teu primeiro contacto com a fotografia?

Muito novo, teria uns 5 ou 6 anos, meu tio era um fotógrafo amador, já avançado para a época, fotografava essencialmente em preto e branco, revelava e ampliava as suas próprias fotografias. Ensinou-me muito.

2 – Desde então foi um processo contínuo até hoje ou houve interregnos? Neste último caso porquê?

Embora desde miúdo fizesse umas fotografias, nada de especial, só me iniciei a sério no início da década de 80. Naquele tempo era impraticável para um estudante praticar seriamente a fotografia, era caro, havia pouco material disponível aos amadores, as revelações eram essencialmente feitas nos “fotógrafos” ou lojas de fotografia. Havia pouca forma de dar asas à criatividade que não fosse na tomada de vistas fotográfica. Depois era entregar o “rolo” e passado uns dias ir buscar as fotos. Era caro, acabei por ter de parar.

3 – Com que área da fotografia mais te identificas ou preferes trabalhar? Quais as razões dessas preferências?

Gosto muito de fotografia documental, fotografar pessoas, desenvolver projectos nesta área para documentar determinadas comunidades, para mim a fotografia documental é comparável à escrita, como escreveres um livro. Nunca fui de sair e fotografar tudo o que mexe ou fotografar por impulsos. Quando saio para fotografar, é já com algo específico em mente, uma espécie de seguimento natural do projecto que tenho em curso. Claro está que de vez em quando também aposto nos “devaneios”, especialmente na área da fotografia de paisagem.

4 – Achas fundamental a aposta num determinado género de fotografia, ou uma mesma pessoa pode ou tem espaço para desenvolver em simultâneo vários projectos diferentes?

Depende do que o artista pretende, onde pretende chegar, a forma como entende a fotografia e os seus objectivos na mesma. Raros são os artistas que são conhecidos internacionalmente por “fotografarem tudo o que mexe”. Normalmente, um artista torna-se conhecido com base em determinadas apetências para um tipo de fotografia específico e por apresentar excelentes trabalhos nesse tema. Mas isto são abordagens “pretensiosas” de determinados artistas, quem quer atingir determinados patamares na fotografia. É perfeitamente válido que quem pretender assumir a fotografia como uma mera actividade lúdica e de expressão pessoal tenha abordagens mais generalistas, fotografe por impulso qualquer motivo que lhe agrade e procure fazer trabalho e explorar todas a vertentes da fotografia. Se calhar um dia acaba por se especializar num género ou outro, penso que é um caminho que todos seguem sem excepção. Obrigatoriamente os patamares são sempre atingidos através do talento, já que a fotografia é uma arte e a arte embora de definição difícil, é comummente aceite como uma mistura de técnica e criatividade, sempre com o talento presente.

5 – Qual foi a sensação ao saberes que, pela primeira vez, um trabalho teu ia ser exposto?

Já tive muitos trabalhos meus expostos em muitos países, só este mês de Março vou ter trabalhos expostos em três países diferentes. A sensação inicial é sempre de apreensão relativamente à reacção do público e da crítica aos teus trabalhos. Por acaso, nunca estive presente numa exposição minha para “enfrentar” o público pessoalmente, um dia terá que ser, mas sou defensor que as minhas fotografias devam falar por si, o autor não tem de ser exposto, pelo menos eu sou uma pessoa algo reservada que preza o anonimato.

6 – E quando foste convidado para o primeiro trabalho “a sério”?

Por norma não aceito trabalhos por “comissão” ou comissionados, já fui várias vezes convidado para fazer determinados trabalhos, recusei sempre. Se um dia me aparecer um convite para um projecto interessante que me agrade fazer, ponderarei aceitar.

7 – No âmbito da tua carreira, seja ao nível de autor ou comercial, qual ou quais os projectos que ainda estão na gaveta, mas que têm que ser feitos?

Com o máximo respeito, não responderei a essa pergunta. Infelizmente a fotografia é uma actividade muito competitiva, especialmente no nosso cantinho à beira mar plantado. E onde toda a gente tende a imitar toda a gente, fazem-se milhares de fotografias do mesmo assunto e a criatividade parece ser algo que poucos possuem. Se referisse projectos que tenho em mente para o futuro, decerto em breve haveria alguém a pegar neles.

8 – Sendo o processo criativo algo tortuoso, tens alguma(s) técnica(s) ou metodologia que sigas para conseguires desbloquear o processo quando ele pára mesmo?

A fotografia é uma arte, como todas as artes exige técnica e criatividade. A técnica é algo que se aprende a dominar, experiência, muita prática, muitas fotografias falhadas. A criatividade é mais difícil, num mundo onde se produzem milhões de fotografias por dia. Daí que é importante o artista ter projectos temáticos ou conceptuais e estabelecer uma linha de construção dos mesmos. Mas há dias em que é difícil termos paz de espírito e inspiração e o processo bloqueia, acontece a todos, o melhor é descansar e retomar mais tarde. Acontece em todas as artes.

9 – Quais os teus fotógrafos de referência ou que, de alguma forma, te influenciam ou influenciaram?

Sendo essencialmente um adepto de preto e branco, tenho Ansel Adams como referência, a sua técnica em termos de preto e branco é inultrapassável. Assim, estudei minuciosamente todos os seus livros, os processos, as técnicas que desenvolveu. Em termos de abordagem humanista à fotografia, sou um fã incondicional de Doisneau, Atget, Dorothea Lange, Sebastião Salgado e Steve Mccurry, este último um amigo pessoal com quem me comunico frequentemente.

10 – Que equipamentos usas e quais ainda te faltam para teres o que “kit” pronto?

Uso várias câmaras. Em filme uso uma Horseman LX-C e uma Horseman FA-45 para grande formato 4×5, em médio formato uso uma Mamiya RZ67 PRO II e em termos de suporte digital, uma Canon EOS 5D MKII. Para ter o kit pronto acho que não me falta nada, tenho laboratório de revelação, sistema de digitalização de negativos, um vasto conjunto de lentes e acessórios, talvez a próxima aquisição seja uma câmara de muito grande formato, penso numa 8×10”.

11 – Filme ou Digital? Porquê?

Ambos. Para preto e branco sem dúvida o filme, pelas suas características orgânicas, texturas, gradação de cinzas e durabilidade relativamente a arquivo. Eu uso essencialmente o filme em médio e grande formato, que na minha opinião, desde que bem exposto e revelado ainda ultrapassa em muito as câmaras digitais. Em cor também uso o filme, especialmente para paisagem, mas admito que as câmaras digitais e os meios de edição atingiram níveis absolutamente extraordinários. No entanto sinto-me seguro por saber que tenho um vasto arquivo de fotografias em filme, devidamente arquivado e que me dá a garantia de durar centenas de anos sem perder qualidade. Já relativamente aos ficheiros digitais, não tenho essa garantia. Em termos de fotografia em ambientes de pouca luz, sem dúvida que opto pela 5D MKII, aí o filme já não atinge a qualidade destes novos sensores digitais com uma capacidade brutal para registar detalhes com velocidade suficiente quase no escuro.

12 – Técnica ou Conteúdo? Porquê?

Ambos. Sendo a fotografia uma arte, não há arte sem técnica e não há arte sem conteúdo. O mais importante é o resultado final, mas um artista deve ter sempre uma boa base técnica para produzir os resultados finais pretendidos. Não acredito na arte aleatória nem acredito na técnica pura. O domínio da técnica são as “asas” do artista, com isto não quero dizer que as fotografias tenham de ser tecnicamente perfeitinhas, mas sim que o artista não tem limitações técnicas à sua criatividade.

13 – Que conselho gostavas que te tivessem dado no início, que agora darias a quem está a começar?

Fotografar essencialmente aquilo que gostamos e aprender todos os dias, estudar. No entanto, dado o estado da economia e a forte saturação do mercado de fotografia profissional, aconselho sempre os novos fotógrafos a terem uma profissão que lhes permita viver a vida com o mínimo de dignidade e terem na fotografia uma ocupação suplementar. Hoje a profissão de fotógrafo, salvo casos muito raros, é uma profissão que não proporciona um nível de vida elevado e confortável.

Ligações:

http://ruipires.fineart-portugal.com/
http://1x.com/artist/ruipires
http://www.facebook.com/ruiafpires

Adicionar comentário

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.


© 2017 Fotografia de Rua | Todos os direitos reservados | Oficina dos Sites